Esquizofrenia Programada

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Primavera Brasileira?

No dia 20.06 ocorreu em Manaus (AM) a primeira de uma série de manifestações de grande porte que tem tomado conta do país nas últimas semanas. O estopim se deu em São Paulo (SP), onde milhares de pessoas tomaram as ruas para protestar contra o aumento abusivo da tarifa do transporte público, sendo fortemente reprimidas pela polícia militar.

Normalmente, prefiro que minhas fotos se expliquem por si, mas, após alguns anos participando de movimentos similares na minha cidade (https://vimeo.com/65612336), preciso relatar o que vi e vivi na última quinta-feira, 20.

Tais eventos tem sido tão relevantes, social e historicamente, que ganharam atenção especial da mídia nacional e internacional. Têm chamado atenção, principalmente, por dois fatores: o grande número de reinvindicações e os atos e confrontos violentos em diversas capitais, inclusive Manaus, que têm sido atribuídos, sempre, a uma minoria.

Cartazes

Para mim, foi muito visível, na manifestação em que participei, de que há algo mais, algo que a mídia não irá divulgar, que me torna extremamente apreensivo diante das manifestações.

Fuck the System!

Em 2011, quando eclodiram as manifestações do movimento Occupy Wall Street nas principais cidades dos Estados Unidos, o governo e a mídia logo desqualificaram suas pautas por serem vagas e diversas, sem foco em propostas, da mesma forma como a mídia nacional e o governo em alguns momentos, onde desqualificaram as manifestações por terem o mesmo caráter difuso. Tanto lá quanto aqui, o mar de reinvidicações nos cartazes são evidencia de uma insatisfação geral, com um modelo de política social e econômica que não é construída pra favorecer a população e sim uma minoria. A grande questão, então, seria: como promover uma reforma política e econômica de curto prazo que atendesse às expectativas da população?

Dessa questão surge um dos principais problemas com os quais temos de lidar para que nada disso seja em vão: os oportunistas. No dia 20, estavam em todos os lugares, caminhando a sós, infiltrados na multidão ou tentando liderar a massa com seus carros de som alugados. Enalteciam a presença da polícia militar e a nação, afirmavam representar o povo, mas seu discurso promovia a desinformação. Desses focos surgiam os cantos a favor de um impeachment, jogo da oposição política ao atual governo, que em nada traria os benefícios que a população clama. Como afirmei anteriormente, a insatisfação é geral, se estende dos mais baixos aos mais altos escalões do governo, independente de partidos.

Menos Copa...

Vem pra rua

Há quem fale dos perigos do discurso antipartidário, afirmando que no modelo democrático é saudável a existência de diversos partidos, que representam a heterogeneidade de ideias e o poder de escolha do povo diante dessas ideias diferentes. Na “democracia” brasileira, no entanto, não é o que percebemos na prática. Desde o processo da redemocratização, vivenciamos governos liderados por partidos opostos, sofrendo do mesmo descaso, assistindo escândalos de corrupção surgirem em ambos, vendo a economia prosperar a favor dos grandes bancos e empresários do país, cujos grandes defensores estão no congresso. Um forte emblema disso hoje são os empresários de transporte coletivo do país inteiro, que ano após ano, nas grandes capitais, forçam aumentos abusivos que não condizem com a péssima qualidade dos serviços oferecidos, com o aval dos governos locais. Me pergunto, portanto, até onde essa heterogeneidade existe, será que não estamos na mão de uma escola de políticos? Trata-se de uma generalização, pretendo, no entanto, induzir uma reflexão onde ela se faz necessária.

Pela honra da educação. Brasil Anarquia

O outro extremo, também muito presentes nas manifestações pelo país, é o nacionalismo exacerbado, as caras pintadas, o ser brasileiro com muito orgulho e amor, símbolos de um movimento que representou uma das maiores manipulações midiáticas que esse país já sofreu. Não é tempo de se ter orgulho de ser brasileiro, de levantar nossa bandeira com amor. É tempo de se indignar com o fato de ser brasileiro, se indignar com a qualidade de nossos serviços, com o pão e circo, com o pouco caso que todo dia os políticos fazem conosco, acreditando que não estamos olhando. Para mim, esse tipo de demonstração mostra que nosso povo, apesar de tudo o que passou, não amadureceu, continua acreditando que ser brasileiro é bom, apesar dos pesares. Corremos o risco de ser enganados mais uma vez, assistindo a tudo de camarote.

No dia 20, presenciei uma verdadeira festa, não uma manifestação. O aglomerado de pessoas cantando o hino nacional sob regência da banda da polícia militar, me lembrou muito mais uma comemoração de 7 de Setembro, do que um ato pela democracia. Em meio a tudo isso, indivíduos e grupos difusos, impulsionados por alguma causa e com intensa vontade de se fazerem ouvidos, estavam visivelmente envergonhados com o que o ato havia se tornado, sentido-se calados pelos enaltecimentos à nação.

À luta.

Não há cura!

Enquanto um grupo maior se dirigia à Arena da Amazônia, um grupo dissidente de cerca de mil manifestantes se dirigiu à prefeitura da cidade, onde “vândalos” depredaram paradas de ônibus, atiraram pedras contra a sede do governo local, atearam fogo em ônibus, terminando em confronto violento com a polícia, com direito à gás lacrimogênio e balas de borracha. Na ala principal dessa “escola de samba” a PM parecia apoiar os manifestantes, cedendo até sua banda.

À grupos como esse, a mídia e o senso comum têm denominado “vândalos”, “baderneiros”, minorias que só querem promover a desordem. Eles são de fato minoria. Estão retribuindo o governo à altura, devolvendo a violência simbólica com as quais sofreram durante toda a vida, assistindo à brutalidade da PM nas periferias, perdendo tempo dentro de coletivos e salas de espera da rede pública de saúde, confiando, talvez, que o poder público um dia os atenda. A maior violência é aquela que não se vê, que se acumula, se torna raiva contida naqueles que sofrem suas consequências.

Aqueles que promovem a não violência, que gritam pelas manifestações pacíficas, silenciam e desqualificam essa voz marginal, demonstrando a expressividade de uma classe média cujas demandas são completamente diferentes das demandas daquelas dos que vivem às margens, com péssimas condições de moradia, com serviços pobres de coleta de lixo, distribuição de água e de energia, sem perspectiva de emprego e até de educação básica para seus filhos, cuja miséria não foi erradicada por um governo que afirma ter seu combate como prioridade.

Fica claro que existem grupos sociais diversos pertencentes à classes diversas, há aqueles que sabem pelo que se manifestam, há aqueles que vão à “micareta”, há os que querem manipular a massa e há os que sofrem na pele a violência do estado e o preconceito que sofrem dos outros grupos diariamente.

Formatar o Brasil.

Mostramos que o povo existe, que somos sim um país miscigenado e que as políticas sociais e econômicas não atendem à todos. Falta entender que temos poder, que não podemos esquecer daqui há umas semanas tudo o que ocorreu, esquecer que existem aqueles que querem nos manipular, e que não são só nossos interesses os que importam e sim de todas as minorias que compreendem nossa diversidade.

Todo poder emana do povo! Meu útero não é do estado!

Temos que lembrar sempre que devemos fiscalizar o governo, e não lembrar dele de tempos em tempos se orgulhando da pátria. Temos de entender o simbolismo da bandeira, de uma polícia militar e desenvolver uma consciência política apurada, procurando entender o que significam os velhos bordões para não reproduzir os velhos discursos falidos.

Nosso país não acordou ao fim da Era Collor e pode muito bem continuar a dormir agora após esse breve bocejo. Temos que começar a pensar no Estado como nosso filho, pra não morrer nos braços da mãe gentil.

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