Sensibilidade?

Em época de inovações tecnológicas ocorrendo a cada mês (e porque não dizer a cada dia) os spotlights se voltam  para aquela sensação de que quanto mais facilidades melhor. Uma sensação latente na antiguidade e expressa contemporaneamente de forma geral, que, inclusive, nos presenteia com disputas cada vez mais acirradas pelo status de quem possui a ultima tecnologia lançada. No mundo fotográfico não poderia ser diferente…

Não  sou avesso à isso, muito pelo contrario, acredito no bem que isso tudo nos trás. Entretanto, acredito e me arrisco dizer, com base na minha percepção, que chegamos  ou podemos chegar rapidinho ao ponto de perdermos nossa sensibilidade. Se a mídia nos diz que  estamos perdendo nossa sensibilidade como pessoas, eu  vou  me apegar na possível perda de sensibilidade como fotógrafos , ou melhor, como artistas mesmo.

Como sabemos a tecnologia nos beneficia de diversas maneiras, no entanto, quando me refiro à sensibilidade, na verdade falo a respeito de algo que não se pode separar da tecnologia quando essa faz parte do processo artístico. Da sensibilidade de pensar  em fotografia e não somente na técnica (equipamento, enquadramento, luz, etc.).

Não quero me excluir desse grupo de “semi-insensíveis”, nem criticar essa ou aquela maneira de fotografar ou usar a fotografia. Quero, isso sim, enquadrar temas de riscos inerentes à atividade de fotografo. A sensibilidade deve evoluir para acompanhar a evolução tecnológica. Bresson disse uma vez em uma entrevista algo que cabe bem nesse contexto: “… O contato excessivo com a máquina é a preguiça do olho, ele fica atrofiado…”

Um fato incontestável é que a tecnologia democratizou a fotografia nos dando maiores oportunidades, no entanto, vemos que nem todos aqueles que usam a fotografia como “ganha-pão” podem ser considerados Fotógrafos. Dessa forma cabe a reflexão do que é ser Fotógrafo. Ou o que é a Fotografia?

Começar uma busca para compreender o que é a fotografia “em si”  se torna um exercício fundamental para estabelecermos uma evolução artística dos nossos trabalhos e não é algo relativamente novo. Vilém Flusser, em seu livro “Filosofia da Caixa Preta” de 1985 afirma que “em fotografia, não pode haver ingenuidade. Nem mesmo turistas ou crianças fotografam ingenuamente. Agem conceitualmente, porque toda intenção estética, política ou epistemológica deve, necessariamente, passar pelo crivo da conceituação, antes de resultar em imagem. “ É um agir “pós-ideológico”.

Quero afirmar com isso que um risco inerente à atividade de fotografo é esquecer que a fotografia é uma tentativa de reter na prata do filme ou na eletrônica do pixel (tão bem denominados sensíveis) um inconsciente manifesto.

Nesta busca, Roland Barthes (A Câmera Clara 1984) descreve o ato de fotografar como sendo um “ fenômeno tanto psíquico quanto uma atividade ótica-química”.  Se é dessa forma podemos concluir que fotografamos primeiro com o inconsciente e daí a fotografia explode em confronto com a cena.

Imaginar que a fotografia é apenas uma fonte de renda, que o equipamento ou software de edição tem maior responsabilidade pala a conclusão do trabalho do que a foto que começou em você é eliminar o fato que sua fotografia tem valor artístico.

Mas, esse conceito nem sempre vem a nossa mente quando nossos olhos penetram no visor e, por isso, acredito que essa reflexão é tão importante para compreensão de nosso valor artístico nos dias de hoje.

Quando vemos as fotografias de Sebastião Salgado, por exemplo, vemos como são grandiosas suas exposições, mas se pensarmos que cada fotografia é da ordem de 1/250 de velocidade estaríamos restritos ao fato de observar menos de 1 segundo de cada um de seus grandes ensaios. Essa matemática sempre me incomodou e ilustra o que é fotografar para Flusser: “O gesto de fotografar é um gesto caçador no qual aparelho e fotógrafo se confundem, para formar unidade funcional inseparável. O propósito desse gesto unificado é produzir fotografias, isto é, superfícies nas quais se realizam simbolicamente cenas.”

Impossível não relacionar este instante ao “momento decisivo” Bressoniano.  A dimensão temporal ínfima de cada exposição é capaz de revelar toda uma narrativa sobre temáticas indubitavelmente complexas. O “instante decisivo” Bressoniano parece agir aqui em consonância ao que o próprio Barthes denominou “Punctum”, ou seja,  se somos como “caçadores”, “Punctum” é o que nos faz escolher uma cena (ou “caça”) em detrimento de outra. O ponto que nos “fere” e nos faz  apertar o botão cortando e transformando a realidade em uma cena que já se foi. Nas palavras de Barthes: “O punctum é, portanto, um extracampo sutil, como se a imagem lançasse o desejo para além daquilo que ela dá a ver.” Nem toda fotografia possui esse ponto, ou “Punctum”, algumas apenas nos provocam um interesse geral  nos forçando a investigar o “processo de criação”.

No fim das contas, como toda filosofia, restam diversas dúvidas e temas para debatermos e a busca das respostas nos faz crescer em entendimento e responsabilidade. A todo momento estamos criando imagens em pensamentos e, como tantas outras coisas, é comum que passe despercebido seu significado para nós. No entanto a minha principal dúvida é se aquela antiga máxima afirmando que “o fotógrafo enxerga coisas onde não vemos nada” nos faz sentido atualmente.

Artigo Publicado na Revista  B&W IN COLOR #2

 

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