Apesar de você… há uma fotografia.

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Estamos acompanhado os embates e debates que cercam as biografias não autorizadas. Minha opinião sobre tudo isso coincide com as palavras do jornalista e escritor Laurentino Gomes que disse entender o direito dos biografados à privacidade e à intimidade, mas destacou que a riqueza da história depende da pluralidade de visões a respeito de personagens e acontecimentos.
O meu grande interesse nessa história toda surgiu com a ressente notícia dada pela Folha de São Paulo onde o grande Chico Buarque foi destaque graças as sua declarações… infelizes? Todos devem saber de qual declaração estou me referindo, então, não vou entrar em detalhes. Enfim, hoje a Folha divulgou a notícia de uma fotografia que desmente Chico, quando o mesmo disse não ter dado nenhuma entrevista para César Araújo para a biografia não autorizada de Roberto Carlos, intitulada “Roberto Carlos em Detalhes” (Planeta).
Polêmicas à parte, essa foto, me fez refletir em outro princípio inscrito nos genes da Fotografia: a suposição de verdade. Por sua aparência, a fotografia não só é depositária de verossimilhança (qualidade da visibilidade), mas também de veracidade (qualidade do discurso). Por um lado, transcreve o real com fidelidade; por outro, infunde uma auréola de honestidade no fotógrafo… ou em quem fez a foto. Portanto, a câmera reúne simultaneamente o verdadeiro, o verossímil e o veraz. Em qualquer caso o gesto de identidade a que a fotografia não renunciou até agora é o de fornecer dados confiáveis. Por isso a sensação de contrariedade que sentimos quando descobrimos que tal foto não é real.
O pedido de desculpas parece ser óbvio:
“Não me lembrava de ter dado entrevista alguma a Paulo Cesar Araújo, biógrafo de Roberto Carlos. Agora fico sabendo que sim, dei-lhe uma entrevista em 1992 […] Errei e por isso lhe peço desculpas”, escreveu Chico nesta quinta-feira.

Pois é Chico, sou fã incontestável, mas apesar de você… há uma fotografia.

Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii – (1863-1944)

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 É alucinante a qualidade na fotografia a cores conseguida há um século.

As fotografias que se mostram a seguir não foram coloridas agora. São originais. Foram realizadas pelo fotógrafo Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii com a melhor câmara da época. Sergei Mikháilovich Prokudin-Gorskii (1863-1944) dedicou a sua carreira ao avanço da fotografia e estudou com renomados cientistas em São Petersburgo, Berlim e Paris onde se formou como químico, desenvolvendo as técnicas para as primeiras fotografias a cores. Dos seus resultados surgiram as primeiras patentes de películas positivas a cores.

Prokudin-Gorskii utilizou os seus estudos em química para desenvolver um sistema fotográfico no qual se realizavam três tomadass num soporte de vidro, tomadas monocromáticas em sequência muito rápida, em placas de vidro de 3 x 9 cada uma com um filtro de cor diferente (vermelho, azul e verde).

Os negativos branco e preto assim obtidos eram positivados e depois estes positivos transparentes projetavam-se diante do público com um projetor triplo que contava com os mesmos filtros de cor em cada uma das suas lentes. As três placas que tinham decomposto a imagem cromaticamente, voltavam a compô-la ao coincidir as três projeções sobre uma tela branca (ecrã) e assim era possível reconstruir a imagem com as cores originais. No entanto, Prokudin-Gorskii não dispunha do mecanismo para realizar impressões das fotos obtidas.

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Em 1905, Prokudin-Gorskii concebeu o grande projeto de documentar, com fotografias a cores, a enorme diversidade da história, cultura e avanços técnicos do grande Império Russo, como material para ser utilizado nas escolas do império.

Para o seu projeto, o Czar Nicolau II pôs à sua disposição um vagão de trem equipado com uma câmara escura e todo o material fotográfico necessário. Igualmente obteve todos as permissões para visitar áreas de aceso restrito e contar com o apoio da burocracia do império.

Assim equipado, Prokudin-Gorskii percorreu o império entre 1909 e 1915, documentando-o com imagens e dando a conhecer a magnitude das suas terras, suas paisagens e as populações. A alta qualidade das imagens, combinada com as cores brilhantes, tornam difícil para os espectadores crer que se trata de fotografias de 100 anos atrás e que, quando foram tiradas, nem a Revolução Russa nem a Primeira Guerra Mundial tinham começado.

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Os temas mais frequentes entre as 2.607 imagens são as pessoas, a arquitetura religiosa, os lugares históricos, a indústria e a agricultura, a construção de obras públicas, as cenas ao longo das rotas de transporte de água e da estrada de ferro, e vistas de aldeias e cidades.

Aqui eu separei  algumas das centenas de imagens a cores que a Biblioteca do Congresso de Washington digitalizou no ano 2010. Já que foi esta instituição que em 1948 adquiriu as placas de cristal originais aos herdeiros do fotógrafo.

Em 1918, Prokudin-Gorskii abandonou a Rússia depois de inteirar-se da morte do Czar e da sua família. Dirigiu-se primeiro á Noruega e Inglaterra instalando-se a seguir em Paris onde morreu em 1944.

O fotógrafo de Czar – Coleção de fotografias a cores tiradas entre 1909 e 1915 no final do Império Russo

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Auto retrato de Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii

Foto-plus

Hoje li uma matéria de uma revista “especializada em fotografia” , cujo o titulo era: “Os 10 Mandamentos de Henri Cartier-Bresson” e o subtítulo dizia algo como a lista de Bresson para fotografar cenas urbanas.

Bom…Basta somente assistir à algum documentário (sério) sobre a vida e a obra desse fotógrafo para constatar que ele, muito provavelmente, odiaria essa matéria.

Principalmente esse titulo meio cosmogônico… Mas é o que vende.

“10 dicas para ser um fotógrafo excelente”, “Domine a luz natural”, “5 mandamentos da felicidade”, e tantos outros desse tipo, são títulos que estamos habituados a ver nas bancas e livrarias, aliás, quem lembra da revista que trazia na capa: “Seja um fotógrafo em 1 dia”?.

São tantas pontes, linhas-guia que nos apressamos a estender. Meios e métodos melhorados para um fim não melhorado. As inovações costumam ser preciosos brinquedos que acabam nos distraindo das coisas importantes, por exemplo, Bresson disse várias vezes que não queria estar vivo para ver a “regra dos terços” no visor da câmera.

Onde foi parar o “punctum” de Barthes? Ou a “Aura” de Benjamin?

Acho que esse tipo de artigo (tão comum e que parece “formar” a geração de fotógrafos da qual faço parte) se apressa em estender uma linha de comunicação entre a fotografia e as pessoas que consomem esse produto; mas, talvez a fotografia e essas pessoas não tenham nada de importante para dizer um ao outro.

Hoje é difícil imaginar a fotografia pura, ou seja, parece que há uma “necessidade” de mesclar a fotografia com outras artes visuais e outras plataformas para que ela ganhe outra estética e pareça mais “interessante”, isso pode ser bom… mas creio que não seja Fotografia e sim uma especie de foto-plus que vem dominando as exposições e galerias…

O que eu sinto é que a fotografia contemporânea, a que resta, mais que a arte da luz, deva se tornar a arte da lucidez.

Um Olhar Livre

Quando comecei a fotografar, à 3 anos atrás, a pergunta que não calava era: “O que eu vou fotografar?” Com o passar dos dias fui deixando essa  angustia e resolvi fotografar tudo que aparecia na minha frente, fui conhecendo fotógrafos, me aprofundando na história e conhecendo mais fotógrafos, estilos, técnicas e moldando meu jeito de ver as coisas.

Ainda estou nesse processo e acho que nunca vou acabar, pois deixei a agonia da dúvida inicial e passei a me perguntar qual o sentido da fotografia, por que faço isso!? Essa pergunta ainda não tem resposta definitiva e acho que vai demorar para ter…

Mas de uma coisa eu gosto: Pessoas! E como elas se comportam, ou se importam ou não, umas com as outras e com a sociedade. Então resolvi buscar minhas primeiras fotos e algumas que fiz recentemente e montar um projeto que busca retratar esse comportamento… digamos assim.

O futuro é incerto, mas continuarei  à registrar, à película, e com minha Yashica as ruas e as pessoas que me rodeiam, que se importam e que não se importam comigo, procurando sempre manter um olhar livre. Uma prévia do projeto com algumas imagens você confere logo abaixo:

Espero que goste:

 

Sensibilidade?

Em época de inovações tecnológicas ocorrendo a cada mês (e porque não dizer a cada dia) os spotlights se voltam  para aquela sensação de que quanto mais facilidades melhor. Uma sensação latente na antiguidade e expressa contemporaneamente de forma geral, que, inclusive, nos presenteia com disputas cada vez mais acirradas pelo status de quem possui a ultima tecnologia lançada. No mundo fotográfico não poderia ser diferente…

Não  sou avesso à isso, muito pelo contrario, acredito no bem que isso tudo nos trás. Entretanto, acredito e me arrisco dizer, com base na minha percepção, que chegamos  ou podemos chegar rapidinho ao ponto de perdermos nossa sensibilidade. Se a mídia nos diz que  estamos perdendo nossa sensibilidade como pessoas, eu  vou  me apegar na possível perda de sensibilidade como fotógrafos , ou melhor, como artistas mesmo.

Como sabemos a tecnologia nos beneficia de diversas maneiras, no entanto, quando me refiro à sensibilidade, na verdade falo a respeito de algo que não se pode separar da tecnologia quando essa faz parte do processo artístico. Da sensibilidade de pensar  em fotografia e não somente na técnica (equipamento, enquadramento, luz, etc.).

Não quero me excluir desse grupo de “semi-insensíveis”, nem criticar essa ou aquela maneira de fotografar ou usar a fotografia. Quero, isso sim, enquadrar temas de riscos inerentes à atividade de fotografo. A sensibilidade deve evoluir para acompanhar a evolução tecnológica. Bresson disse uma vez em uma entrevista algo que cabe bem nesse contexto: “… O contato excessivo com a máquina é a preguiça do olho, ele fica atrofiado…”

Um fato incontestável é que a tecnologia democratizou a fotografia nos dando maiores oportunidades, no entanto, vemos que nem todos aqueles que usam a fotografia como “ganha-pão” podem ser considerados Fotógrafos. Dessa forma cabe a reflexão do que é ser Fotógrafo. Ou o que é a Fotografia?

Começar uma busca para compreender o que é a fotografia “em si”  se torna um exercício fundamental para estabelecermos uma evolução artística dos nossos trabalhos e não é algo relativamente novo. Vilém Flusser, em seu livro “Filosofia da Caixa Preta” de 1985 afirma que “em fotografia, não pode haver ingenuidade. Nem mesmo turistas ou crianças fotografam ingenuamente. Agem conceitualmente, porque toda intenção estética, política ou epistemológica deve, necessariamente, passar pelo crivo da conceituação, antes de resultar em imagem. “ É um agir “pós-ideológico”.

Quero afirmar com isso que um risco inerente à atividade de fotografo é esquecer que a fotografia é uma tentativa de reter na prata do filme ou na eletrônica do pixel (tão bem denominados sensíveis) um inconsciente manifesto.

Nesta busca, Roland Barthes (A Câmera Clara 1984) descreve o ato de fotografar como sendo um “ fenômeno tanto psíquico quanto uma atividade ótica-química”.  Se é dessa forma podemos concluir que fotografamos primeiro com o inconsciente e daí a fotografia explode em confronto com a cena.

Imaginar que a fotografia é apenas uma fonte de renda, que o equipamento ou software de edição tem maior responsabilidade pala a conclusão do trabalho do que a foto que começou em você é eliminar o fato que sua fotografia tem valor artístico.

Mas, esse conceito nem sempre vem a nossa mente quando nossos olhos penetram no visor e, por isso, acredito que essa reflexão é tão importante para compreensão de nosso valor artístico nos dias de hoje.

Quando vemos as fotografias de Sebastião Salgado, por exemplo, vemos como são grandiosas suas exposições, mas se pensarmos que cada fotografia é da ordem de 1/250 de velocidade estaríamos restritos ao fato de observar menos de 1 segundo de cada um de seus grandes ensaios. Essa matemática sempre me incomodou e ilustra o que é fotografar para Flusser: “O gesto de fotografar é um gesto caçador no qual aparelho e fotógrafo se confundem, para formar unidade funcional inseparável. O propósito desse gesto unificado é produzir fotografias, isto é, superfícies nas quais se realizam simbolicamente cenas.”

Impossível não relacionar este instante ao “momento decisivo” Bressoniano.  A dimensão temporal ínfima de cada exposição é capaz de revelar toda uma narrativa sobre temáticas indubitavelmente complexas. O “instante decisivo” Bressoniano parece agir aqui em consonância ao que o próprio Barthes denominou “Punctum”, ou seja,  se somos como “caçadores”, “Punctum” é o que nos faz escolher uma cena (ou “caça”) em detrimento de outra. O ponto que nos “fere” e nos faz  apertar o botão cortando e transformando a realidade em uma cena que já se foi. Nas palavras de Barthes: “O punctum é, portanto, um extracampo sutil, como se a imagem lançasse o desejo para além daquilo que ela dá a ver.” Nem toda fotografia possui esse ponto, ou “Punctum”, algumas apenas nos provocam um interesse geral  nos forçando a investigar o “processo de criação”.

No fim das contas, como toda filosofia, restam diversas dúvidas e temas para debatermos e a busca das respostas nos faz crescer em entendimento e responsabilidade. A todo momento estamos criando imagens em pensamentos e, como tantas outras coisas, é comum que passe despercebido seu significado para nós. No entanto a minha principal dúvida é se aquela antiga máxima afirmando que “o fotógrafo enxerga coisas onde não vemos nada” nos faz sentido atualmente.

Artigo Publicado na Revista  B&W IN COLOR #2