Fotografia, viva!

Começo em fins deste dia 19 de Agosto de 2013, neste Dia Mundial da Fotografia, no blog Fotossincrasias.
Isso não é um relato, tampouco um desabafo. É um sentimento real. Falo aqui de percurso, de imaginação, de amor. E para além e sobre tudo, falo de comunicação.

Minha “linha do tempo” sempre foi observar e questionar, ainda que somente em meu íntimo, o percurso do mundo. Como o mundo anda, como respira. Como ando nele e ele em mim.
O mundo é grande, e isso encanta demais meu espírito. Mesmo com cenas que me escandalizam, causam náusea, angustia, choro. É uma bola gigante que gira entre altos, baixos e os medianos malditos, os que não se decidiram ou que se fizeram exclusos do pensar.
E assim vão se construindo pessoas. O que vemos e sentimos, tudo é capaz de ser visto e sentido, falado, pensado. Porque ainda que haja solidão, aperto e desespero, ninguém está só.
Porque essa bola gigante se comunica. Dialoga. De mil formas. Olha, fala, chora, grita. Não fala. Por essa comunicação, seja desgovernada, embaraçada, medieval, rústica, medíocre, romântica, eu me apaixonei.
Tratei de descobri-la, inventa-la, cria-la, recria-la, modifica-la. Por acreditar no ser humano, na natureza, no que é modificável e no que não é. E quis dizer de muitas maneiras o que eu via e o que sentia. E mais ainda, o que gostaria de ver.
E incentivar isso.
Essa incansável necessidade de relacionar-se faz com que o mundo exista. Quem somos se não forem os outros? Os outros. Aqueles que elevam a mente à curiosidade extrema, de conhecimento. E não somente os outros seres externos, mas os seres que temos inseridos em si. Espelhos internos de devaneios com razão de ser.
Nesse percurso, procuro CONHECER. Inventar caminhos e abri-los ao todo é um vício que hoje cultivo no maior amor, e colocando mais dedicação a cada dia. Muito além de aprender as técnicas, mas de sentir de verdade o que estou fazendo.
SENTIR.
Comemoro hoje. Comemoro a cada dia. Escrever com cores, formas, des-formas, sombras. E luz.
Sempre que houver luz, será possível ver e mostrar o que se passa. Ou ocultar.
Pois só há verdade porque alguém mente.

E assim a alma transforma (-se).

CSC_9356-2

Anúncios

Um Olhar Livre

Quando comecei a fotografar, à 3 anos atrás, a pergunta que não calava era: “O que eu vou fotografar?” Com o passar dos dias fui deixando essa  angustia e resolvi fotografar tudo que aparecia na minha frente, fui conhecendo fotógrafos, me aprofundando na história e conhecendo mais fotógrafos, estilos, técnicas e moldando meu jeito de ver as coisas.

Ainda estou nesse processo e acho que nunca vou acabar, pois deixei a agonia da dúvida inicial e passei a me perguntar qual o sentido da fotografia, por que faço isso!? Essa pergunta ainda não tem resposta definitiva e acho que vai demorar para ter…

Mas de uma coisa eu gosto: Pessoas! E como elas se comportam, ou se importam ou não, umas com as outras e com a sociedade. Então resolvi buscar minhas primeiras fotos e algumas que fiz recentemente e montar um projeto que busca retratar esse comportamento… digamos assim.

O futuro é incerto, mas continuarei  à registrar, à película, e com minha Yashica as ruas e as pessoas que me rodeiam, que se importam e que não se importam comigo, procurando sempre manter um olhar livre. Uma prévia do projeto com algumas imagens você confere logo abaixo:

Espero que goste:

 

Sensibilidade?

Em época de inovações tecnológicas ocorrendo a cada mês (e porque não dizer a cada dia) os spotlights se voltam  para aquela sensação de que quanto mais facilidades melhor. Uma sensação latente na antiguidade e expressa contemporaneamente de forma geral, que, inclusive, nos presenteia com disputas cada vez mais acirradas pelo status de quem possui a ultima tecnologia lançada. No mundo fotográfico não poderia ser diferente…

Não  sou avesso à isso, muito pelo contrario, acredito no bem que isso tudo nos trás. Entretanto, acredito e me arrisco dizer, com base na minha percepção, que chegamos  ou podemos chegar rapidinho ao ponto de perdermos nossa sensibilidade. Se a mídia nos diz que  estamos perdendo nossa sensibilidade como pessoas, eu  vou  me apegar na possível perda de sensibilidade como fotógrafos , ou melhor, como artistas mesmo.

Como sabemos a tecnologia nos beneficia de diversas maneiras, no entanto, quando me refiro à sensibilidade, na verdade falo a respeito de algo que não se pode separar da tecnologia quando essa faz parte do processo artístico. Da sensibilidade de pensar  em fotografia e não somente na técnica (equipamento, enquadramento, luz, etc.).

Não quero me excluir desse grupo de “semi-insensíveis”, nem criticar essa ou aquela maneira de fotografar ou usar a fotografia. Quero, isso sim, enquadrar temas de riscos inerentes à atividade de fotografo. A sensibilidade deve evoluir para acompanhar a evolução tecnológica. Bresson disse uma vez em uma entrevista algo que cabe bem nesse contexto: “… O contato excessivo com a máquina é a preguiça do olho, ele fica atrofiado…”

Um fato incontestável é que a tecnologia democratizou a fotografia nos dando maiores oportunidades, no entanto, vemos que nem todos aqueles que usam a fotografia como “ganha-pão” podem ser considerados Fotógrafos. Dessa forma cabe a reflexão do que é ser Fotógrafo. Ou o que é a Fotografia?

Começar uma busca para compreender o que é a fotografia “em si”  se torna um exercício fundamental para estabelecermos uma evolução artística dos nossos trabalhos e não é algo relativamente novo. Vilém Flusser, em seu livro “Filosofia da Caixa Preta” de 1985 afirma que “em fotografia, não pode haver ingenuidade. Nem mesmo turistas ou crianças fotografam ingenuamente. Agem conceitualmente, porque toda intenção estética, política ou epistemológica deve, necessariamente, passar pelo crivo da conceituação, antes de resultar em imagem. “ É um agir “pós-ideológico”.

Quero afirmar com isso que um risco inerente à atividade de fotografo é esquecer que a fotografia é uma tentativa de reter na prata do filme ou na eletrônica do pixel (tão bem denominados sensíveis) um inconsciente manifesto.

Nesta busca, Roland Barthes (A Câmera Clara 1984) descreve o ato de fotografar como sendo um “ fenômeno tanto psíquico quanto uma atividade ótica-química”.  Se é dessa forma podemos concluir que fotografamos primeiro com o inconsciente e daí a fotografia explode em confronto com a cena.

Imaginar que a fotografia é apenas uma fonte de renda, que o equipamento ou software de edição tem maior responsabilidade pala a conclusão do trabalho do que a foto que começou em você é eliminar o fato que sua fotografia tem valor artístico.

Mas, esse conceito nem sempre vem a nossa mente quando nossos olhos penetram no visor e, por isso, acredito que essa reflexão é tão importante para compreensão de nosso valor artístico nos dias de hoje.

Quando vemos as fotografias de Sebastião Salgado, por exemplo, vemos como são grandiosas suas exposições, mas se pensarmos que cada fotografia é da ordem de 1/250 de velocidade estaríamos restritos ao fato de observar menos de 1 segundo de cada um de seus grandes ensaios. Essa matemática sempre me incomodou e ilustra o que é fotografar para Flusser: “O gesto de fotografar é um gesto caçador no qual aparelho e fotógrafo se confundem, para formar unidade funcional inseparável. O propósito desse gesto unificado é produzir fotografias, isto é, superfícies nas quais se realizam simbolicamente cenas.”

Impossível não relacionar este instante ao “momento decisivo” Bressoniano.  A dimensão temporal ínfima de cada exposição é capaz de revelar toda uma narrativa sobre temáticas indubitavelmente complexas. O “instante decisivo” Bressoniano parece agir aqui em consonância ao que o próprio Barthes denominou “Punctum”, ou seja,  se somos como “caçadores”, “Punctum” é o que nos faz escolher uma cena (ou “caça”) em detrimento de outra. O ponto que nos “fere” e nos faz  apertar o botão cortando e transformando a realidade em uma cena que já se foi. Nas palavras de Barthes: “O punctum é, portanto, um extracampo sutil, como se a imagem lançasse o desejo para além daquilo que ela dá a ver.” Nem toda fotografia possui esse ponto, ou “Punctum”, algumas apenas nos provocam um interesse geral  nos forçando a investigar o “processo de criação”.

No fim das contas, como toda filosofia, restam diversas dúvidas e temas para debatermos e a busca das respostas nos faz crescer em entendimento e responsabilidade. A todo momento estamos criando imagens em pensamentos e, como tantas outras coisas, é comum que passe despercebido seu significado para nós. No entanto a minha principal dúvida é se aquela antiga máxima afirmando que “o fotógrafo enxerga coisas onde não vemos nada” nos faz sentido atualmente.

Artigo Publicado na Revista  B&W IN COLOR #2

 

Novos tempos

Estamos mudando. Já não fazia mais sentido esse blog ser uma construção individual. A produção autoral na fotografia é cada vez mais extensa, temos cada vez mais belos trabalhos a serem mostrados e novas discussões a serem iniciadas,  e não há, porém, muitos espaços físicos e na rede, onde podemos exibir tais trabalhos e começar novas discussões. Fotossincrasias, vai se dedicar, agora, às idiossincrasias fotográficas de outros, buscando sempre a variedade e qualidade do olhar.

Foi pensando nisso que decidi mudar e a partir de agora esse blog será uma construção coletiva, voltada para a fotografia autoral e para discussões sobre fotografia.  Já contamos com alguns colaboradores, mas estamos sempre abertos à novos, então, se você tem vontade de escrever sobre fotografia, ou possui um trabalho autoral que gostaria de mostrar, pode entrar em contato conosco.

O foco continua na fotografia, porém em sua diversidade. Obrigado aos que acompanharam até o momento e espero que continuem nos acompanhando nesses novos tempos.

autoretrato.

Esquizofrenia Programada

DSC_9406

Primavera Brasileira?

No dia 20.06 ocorreu em Manaus (AM) a primeira de uma série de manifestações de grande porte que tem tomado conta do país nas últimas semanas. O estopim se deu em São Paulo (SP), onde milhares de pessoas tomaram as ruas para protestar contra o aumento abusivo da tarifa do transporte público, sendo fortemente reprimidas pela polícia militar.

Continuar lendo